Timor_Fev2007

O Coro Alma de Coimbra e o seu Conjunto de Fados e de Guitarras, efectuaram uma visita a Timor-Leste, entre 10 e 16 de Fevereiro.
O grupo é constituído por antigos estudantes da nossa secular Escola, de profissões, idades e credos os mais diversos. O Coro tem, de momento, 32 elementos (masculinos), dos quais apenas 12 residem em Coimbra; 9, em Lisboa, 6 em Aveiro, 2 no Porto e 1 na Figueira da Foz, Viseu e na Madalena do Pico. Com excepção deste último, que se desloca duas vezes por mês, os restantes reunem-se semanalmente em Coimbra para ensaiar, sob a direcção do Prof. Augusto Mesquita.
Os instrumentistas são 5: 3 guitarras e duas
violas, podendo recorrer-se a mais 2 elementos do Coro, um em cada instrumento
Com entusiasmo e com gosto - não raro, com emoção profunda - cumpriu o (intensíssimo!) programa definido pela nossa Embaixada em Dili.
Foram dias vividos com uma enorme intensidade que perdurarão na memória e no coração de todos os que nela participámos. De alguma coisa do que se passou, daremos nota através do texto que alinhavamos; mas talvez, sobretudo, do testemunho verdadeiramente tocante da Dra Ângela Carrascalão (Anexo) - escrito no final do primeiro dia, tivemos o gosto de ter a autora, depois, connosco em mais do que uma vez...
«
«
A visita do "Alma de Coimbra" a Timor e a Bali:
«
- 1. Com ela, deu-se corpo a um projecto inédito - queira Deus que pioneiro - que tivemos ocasião de, em devido tempo, dar a conhecer a personalidades do maior prestígio no meio universitário e académico de Coimbra. Visto, porventura, como excessivamente ousado, ninguém duvidou de que, além de aliciante, se revestiria de alcance, no plano das relações culturais entre ambos os Países. E que, se bem compreendido e bem preparado, bem poderia constituir elemento capaz de contribuir para a instalação de um clima de paz, de concórdia e de progresso que todos desejamos para o Povo Irmão de Timor-Leste. Razão porque, perante a realidade muito complexa de Timor, afirmando a nossa completa disponibilidade, solicitámos à Embaixada de Portugal em Dili a elaboração do programa da visita. Devemos ao Senhor Embaixador e a todos os seus colaboradores atenções que de todo nos sensibilizaram. Em 5 dias, como se disse atrás, o "Alma de Coimbra" realizou nada menos que 13 actuações - e actuações bem intensas!... Chegados no sábado, 10, a meio da tarde, tivemos, no próprio Hotel Timor (propriedade da Fundação Oriente, a quem devemos o esplêndido acolhimento que nos foi dispensado!), um briefing com o comandante das nossas Forças de Segurança, tenente-coronel Francisco de Sousa, oficial distinto, de competência e brio inexcedíveis, como nos foi dado aperceber ao longo da estada; e com a autoridade sanitária ao serviço do País. O "Alma de Coimbra" iniciou a sua apresentação na Missa de Domingo, às 8 da manhã, na Igreja de Motael (em que, mesmo nos tempos mais duros e difíceis, a Missa foi sempre celebrada na Língua de Camões). Presente, uma multidão de perto de duas mil pessoas; que, à Comunhão, acompanharam emocionadamente o Coro! A partir daí, cantámos para as crianças e jovens estudantes das Escolas - onde deixámos material desportivo, disponibilizado pelo Benfica, pelo Sporting e pelo FC Porto (e - obviamente!) pela Académica; cantámos na Universidade Nacional de Timor-Leste e no Instituto de Formação Contínua de Professores; para os cooperantes civis e militares; para as Autoridades e Parlamentares timorenses; para os membros das Representações Diplomáticas, acreditadas em Dili; para gestores e quadros empresariais, etc. E ouvimos, em diversas ocasiões, grupos corais de crianças, de jovens e de professores, executando músicas lindíssimas de Timor - e peças bem portuguesas, aprendidas nos nossos tempos de infância!... Tivemos uma audiência, verdadeiramente inesquecível, de mais de uma hora, no Palácio das Cinzas, com o Presidente Xanana Gusmão. Recebidos como velhos e bons amigos, vivemos momentos de inenarrável intensidade. Ao concerto final, por ocasião do jantar de despedida, no Hotel Timor, assistiu por feliz coincidência, o Dr. José Magalhães, Secretário de Estado da Administração Interna, em visita oficial, numa comitiva que integrava, entre outros, o Comandante-Geral da GNR e a nossa campeã olímpica Rosa Mota. Outra noite para recordar. Vivemos, pois, dias - e noites! - inesquecíveis, numa experiência verdadeiramente única. Quiçá, irrepetível! Sentimos, nos timorenses, um espantoso amor a Portugal; tal como cada um de nós se sentiu para sempre ligado àquele Povo e àquela terra tão exuberantemente bela!... De lá, não trouxemos naturalmente medalhas nem troféus: antes a convicção de, com a nossa presença e a nossa música, termos apontado no sentido da paz e da concórdia. Isso foi bem reconhecido e ficou bem vincado a todos os níveis e nos quadrantes mais diversificados da vida timorense. Agora, muito mais que da nossa memória, Timor faz, em certo sentido, parte de nós mesmos!...
«
2. O "Alma de Coimbra" passou, depois, 3 dias muito agradáveis em Bali, a convite do Governador respectivo, graças às diligências do Embaixador da Indonésia em Lisboa, Dr. Francisco Xavier Lopes da Cruz, confessado amigo de Portugal e de Timor (foi, aliás, possível, nos diálogos mantidos, ver nele uma preocupação altamente construtiva no que se refere ao desenvolvimento e ao reforço das relações, num quadro trilateral, abrangendo Timor). Ele próprio, com a Sra. Embaixatriz, se deslocou propositadamente a Bali, a fim de acompanhar a nossa estadia - que culminou, no Domingo 18 (após uma intervenção, pela manhã, na Catedral católica, alternando com o Coro respectivo) num magnífico concerto, na Universidade de Denpasar, capital da Ilha.
«
3. Palavras finais: Em primeiro lugar, o agradecimento devido ao Eng. Miguel Anacoreta Correia, amigo de há muito de bastantes de nós. Personalidade destacada a vários planos da vida nacional, antigo Presidente da Comissão Parlamentar de Timor-Leste da Assembleia da República, actual Conselheiro de Estado, deu-nos o privilégio de encabeçar e representar formalmente a comitiva, sempre que tal se justificou: diariamente, e em sucessivas ocasiões. E fê-lo com o brilho, a simpatia e o conhecimento dos locais, das pessoas e dos acontecimentos, só possíveis num espírito em que a realidade timorense ocupa um espaço muito sério e muito sentido. Ficou, de resto, patente a cordialidade do acolhimento que por toda a parte lhe foi dispensado...
Depois, para o maestro Augusto Mesquita, cujas paciência, bonomia e capacidade inesgotáveis permitiram mais este acumular de vivências e de emoções a cada momento transmitidas a todos os públicos. Ganhou, seguramente, muitos mais admiradores - e terá de saber gerir os múltiplos pedidos que de ajuda e de colaboração que lhe foram endereçados.
Para a pianista, Inês Mesquita, obrigando o seu virtuosismo a verdadeiros prodígios, na limitação dos meios disponíveis.
Aos instrumentistas: desde logo, Durval Moreirinhas - o mestre e, ao mesmo tempo, o amigo e companheiro ímpar, prodigioso narrador de episódios da velha Coimbra e dos seus artistas mais salientes, com quem conviveu e acompanhou ao longo do último meio século; o Ricardo Dias, instrumentista de raríssimo talento; e o David Ribeiro, experiente e sabedor como poucos. Também aos solistas: o José Andrade Ferreira, o Manuel Sobral Torres, o Paulo Amador, o Vítor Baltazar, que num esforço quase desumano foram capazes de conciliar a responsabilidade que acrescidamente lhes cabia com o gosto decorrente de uma visita insuspeitadamente agradável e espiritualmente reconfortante.
De forma muito especial, ao Sr. Embaixador de Portugal e aos seus colaboradores próximos, particularmente a Sra. Conselheira de Embaixada, Dra. Fátima Mendes, e à Delegação do Instituto Camões Num meio muito difícil e complexo, formam um conjunto admirável de pessoas abnegadas, lúcidas... e sempre com um sorriso de optimismo e de boa disposição, dedicadas ao serviço de Portugal. Como às centenas e centenas de timorenses, com quem pudemos contactar, ao longo dos dias: deles recebemos lições de cavalheirismo e de portuguesismo que recordaremos pelos anos fora!...
Finalmente, aos Patrocinadores - Entidades públicas e privadas - que tornaram possível a concretização de um sonho, abrindo portas a outros agrupamentos. Particularmente a Fundação Oriente que, ao assegurar o alojamento da comitiva, no acolhedor e bem agradável Hotel Timor, possibilitou o arranque do projecto.
«
A visita a Timor-Leste pôs, de facto, à prova a nossa capacidade de resistência: física e emocional. Foi inesquecível, algo que acontece uma vez na vida. Respondemos com uma entrega total; e regressámos com a certeza de termos cumprido uma missão, ao serviço do País, da nossa cultura e da nossa Universidade - cujo Reitor quis, antes da partida, deixar-nos, por escrito, palavras de estímulo e de saudação que muito nos penhoraram. Não o esqueceremos.
«
«
Texto da Drª Ângela Carrascalão:
«
Coimbra tem mais encantoNa hora da despedida...
A noite prometia e fizemo-nos à estrada. Cruzámo-nos com quatro blindados. Em Fatu-Hada, para não variar, muitas pedras pelo caminho… No Bairro Pité, houve problemas. Violência.
Como todos os dias…A sala estava repleta. De portugueses, a maioria, mas de alguns timorenses também. Todos preparados para ouvir o coro “Alma de Coimbra”. Fez-se silêncio! E bateram-se, muitas, vibrantes palmas! Em momentos como este, percebo bem quão profundas são as raízes portuguesas deixadas em Timor. Tal como constato quão agradável e enriquecedor é o sentimento partilhado de afecto por duas pátrias. O meu e o de todos quantos, como eu, são mestiços de português e timorense. Não sei se irá parecer lamechice transmitir o que sinto. Mas apetece-me partilhar este sentimento.
Esta noite, enquanto ouvia cantar “Coimbra tem mais encanto”, “Foi Deus”, “Coimbra” ou “Amália”, voltei a sentir o que tantas vezes me acontece que é não saber, em determinado momento, se sou mais daqui, se sou mais dacolá… Nunca sei se sou mais timorense, se mais portuguesa … Sou de certeza, as duas coisas!
Esta noite, as capas negras, guitarras, violas, pianista e um coro fantástico fizeram-me voar até Portugal, a quase 19 mil quilómetros de distância… Emocionei-me, naturalmente! Acompanhei, ainda que para dentro, só para mim, os fados que bem conheço. Recordei os amigos, o ambiente, os cheiros, Lisboa, o Tejo, Coimbra…
Deu-me um ataque de saudade! Será apenas portuguesa, a saudade? Ou será a “Sôdade” de Cesária Évora, de Cabo Verde, outro dos momentos altos da noite? Foi uma noite inesquecível. Pelo fado, certamente. Pelo que senti, obviamente. Mas, especialmente porque, estando Timor-Leste a atravessar uma crise difícil, um grupo conceituado tenha vindo a Díli cantar, indiferente ao perigo. É um verdadeiro acto de coragem e de generosidade, cantar duas, três vezes por dia, para todo o tipo de público, timorense e internacional. Na Catedral, na Escola Portuguesa como no Centro Juvenil Padre António Vieira ou na Fundação Oriente. E tal como me senti portuguesa ao ouvir a Alma de Coimbra, sinto-me agora completamente timorense ao transmitir a minha gratidão por se terem lembrado de nós, timorenses. Por terem entendido que não somos apenas violentos, nem gostamos só de apedrejar quem passa, nem somos totalmente ignorantes nem selvagens.Também gostamos de poesia e de música! De fado, também, pois claro! Obrigada, Alma de Coimbra!
« http://timor2006.blogspot.com/2007/02/coimbra-tem-mais-encanto-na-hora-da.html
Ângela Carrascalão,
Domingo, Fevereiro 11, 2007

»
»
http://www.jtm.com.mo/news/20070228/01especial_d01.htm